
quero ser o teu botão
casa comigo
AGARRA-ME!
amo-te, confio em ti,
amo-te
AGARRA-ME!
agarra o meu pé esquerdo, o meu pé
direito, a minha mão!
aqui estou eu pendurada pelos dentes
90 metros acima, no ar, e
AGARRA-ME!
aqui vou eu, voando sem asas,
sem pára-quedas, fazendo uma dupla tripla
super-cambalhota salto mortal
AQUI MESMO SEM
REDE E
AGARRA-ME!
agarraste-me!
amo-te!
Agora é a tua vez
(Poesia em Auto-Destruição - Andreia Macedo)
rio-me até ao mar
A mim, que tanto gosto da solidão, pôs-me Deus no caminho um homem presente.
E eu... abri-o.
os livros fazem-me companhia como um gato que não mia
Andreia Macedo
Tu estás em mim como eu estive no berço
como a árvore sob a sua crosta
como o navio no fundo do mar
Mário Cesariny
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que me não lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num lugar onde só eu ia...
Manuel António Pina
"o amor é mais saboroso de faca na mão"
alma
eu sou assim e não queria ser assim
e há quem não seja assim e queria ser assim.
F de amor
o Homem-Arranha

quando for grande quero ser árvore
é só estar ali
a transformar luz
À LUZ DE UMA ESTRELA PEQUENINA
Peço desculpa ao acaso por lhe chamar necessidade.
Peço desculpa à necessidade se todavia me engano.
Não se zangue a felicidade por a tomar como minha.
Esqueçam-se de mim os mortos porque já mal se me esboçam na memória.
Peço desculpa ao tempo pela quantidade de mundo que por segundo omito.
Peço desculpa a um amor antigo por considerar este novo o primeiro.
Perdoem-me as guerras longínquas o trazer eu flores para casa.
Perdoem-me vós, feridas abertas, por me ter picado num dedo.
Peço perdão a quem grita do abismo por este disco de um minuete.
Peço desculpa às gentes nas estações, pelo meu sonho às cinco da manhã.
Sinto muito rir-me às vezes, ó esperanças perseguidas!
Sinto muito, deserto, não acorrer com uma gota de água.
E tu, gavião, há tantos anos o mesmo, nessa mesma gaiola,
de olhos fixos sempre no mesmo ponto, sempre imóvel,
desculpa-me, mesmo se fores ave empalhada.
Desculpa-me, árvore cortada, as quatro pernas da mesa.
Desculpem-se as grandes questões pelas respostas pequenas.
Verdade, não me prestes uma atenção forte de mais.
Coragem, concede-me a generosidade.
Tolera, mistério do ser, o eu depenicar linhas da cauda do teu vestido.
Não me acuses, alma, por tão raro te ter.
Que o tudo me desculpe o eu não poder estar em toda a parte.
Que me desculpem todos, por não saber ser cada um e uma.
Eu sei que, enquanto viver, nada me justifica, pois eu própria a mim sirvo de estorvo.
Não me leves a mal, fala, eu requisitar termos patéticos,
e acrescentar depois dificuldade, para que pareçam leves.
WISLAWA SZYMBORSKA
mas o talento para a felicidade, ninguém mo tira
o meu coração é forte
Sou uma pessoa, sem dúvida, afortunada.
Em criança, em idade de não guardar memória, adoeci até à morte
E em jovem, em idade de aprender, morri de grande amor
Fiquei com toda a vida para amar.
como sempre: o amor e a morte
"- O romance ou o poema de amor duma oriental é quase o mesmo. Sempre se trata de numerosas cartas e de entrevistas furtivas. O amor mais ou menos completo, e no fim a morte, e às vezes, mais raramente, a fuga."
não se pode ter nostalgia do passado, que ele volta a repetir-se ainda mais intensamente
vida perfeita
de volta a mim
obrigada
mundo
amor-te
muito
piu
"... reconquistei a minha dignidade, reencontrei a minha alma e volto a tomar o meu voo." (Pierre Loti, "As desencantadas")
só brio
só cio
só riso
só lido
só lista
só licitude
só ridente
só turno
só nata
só má
só ar

um dia vais ser minha
Um mercado é um lugar onde se compram e vendem bens.
Um mercado financeiro é um lugar onde se compram e vendem males.
Numa noite de luar
um homem novo velho,
sentado de pé num banco de pau de pedra,
muito bem calado, dizia:
- Bendita seja a luz do sol que nos alumia.
BUUUUU
amemo-nos contra a fome
TracinhoTe

Lérias tuas:
trinta e duas
QUEM NÃO TEM MAU NÃO TEM BOM
♥
Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.
Dou-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Uma promessa de luz
como o cuidadoso despir do amor.
Aqui está.
Cegar-te-á com lágrimas
como um amante.
Fará do teu reflexo
uma trémula foto de dor.
Estou a tentar ser verdadeira.
Não um cartão de visita engraçado ou um beijograma.
Dou-te uma cebola.
O seu intenso beijo permanecerá nos teus lábios,
possessivo e fiel
tal como nós,
tanto tempo quanto nós.
Toma-a.
Os seus anéis de platina reduzem-se a um anel de noivado,
se quiseres.
Letal.
O seu cheiro agarrar-se-á aos teus dedos,
agarrar-se-á à tua faca.
CAROL ANN DUFFY
(trad. Jorge Sousa Braga)
"Um homem pode mudar tudo. Mas há uma coisa que não pode mudar.
Não pode mudar de paixão."
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS
Título original: El Secreto de sus Ojos
Realização: Juan José Campanella
Intérpretes: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Pablo Rago, Javier Godino, José Luis Gioia, Carla Quevedo
Argentina/Espanha, 2009
olho mil vezes para mil palavras. Uma por uma, mil vezes
depois misturo-as e volto a olhar mil vezes
amasso-as e volto a olhar mil vezes
de todas as mil vezes que as olho dizem a uma só voz
mil vezes sim
mil vezes alegria
mil vezes abraço
mil vezes amor
mil vezes confia
mil vezes a mão
mil vezes a luz
mil vezes a lua
mil vezes a vida
mil vezes a aurora
mil vezes de verdade
mil vezes de encanto
mil vezes de sonho
mil vezes bom
e por aí fora … irritantemente delicodoce… sem uma única palavra suspeita, de entre mil vezes mil
volto a olhar
como não fechar os olhos e me dissolver nestas mil palavras?
resisto
volto a olhar
não conheço esta combinação de nada ter de que fugir
esperar, descansar, respirar, confirmar
sinto uma vertigem onde está o se, onde está o mas, onde está o talvez, ONDE?
talvez não tenha visto bem
mil viagens para me torturar
preciso de um sinal. Deus, dá-me um sinal!
dançar dançar dançar dançar dançar dançar dançar dançar…
volto a olhar
ALGUMA COISA DE MAL, por favor!!!!!!!!!!
obrigada
Adeus
Andreia Macedo
A história de um chefe guerreiro, Antar. Um ser terrível. Era um chefe impiedoso, um bruto, um terror cuja fama ultrapassava o clã e as fronteiras. Comandava os seus homens sem gritar, sem se agitar. Com a sua voz baixa, que contratava com o que dizia, dava as ordens e nunca foi desobedecido. Tinha o seu próprio exército e resistia ao ocupante, sem nunca pôr em questão a autoridade central. Era temido e respeitado, não tolerava a mínima fraqueza ou derrota por parte dos seus homens, caçava os corruptos e punia os corrompidos, exercia um poder e uma justiça pessoais, nunca arbitrários, ia até ao fim das suas ideias e do seu rigor; em resumo, era um homem exemplar, de coragem lendária. Descobriu-se no dia em que morreu, que este terror e esta força habitavam um corpo de mulher. Construíram-lhe um mausoléu no local da sua morte; hoje é um santo ou uma santa; é o sangue dos errantes; é venerado pelos seres que se evadem, por aqueles que partem de casa porque são atingidos pela dúvida, à procura do rosto interior da verdade…
(…) Trata-se do “chefe isolado”, aquele que fascinou todos quantos se aproximaram dele. Por vezes apresentava-se com um véu; as suas tropas pensavam que ele queria surpreendê-las; com efeito, oferecia as suas noites a um jovem de beleza rude, uma espécie de bandido errante, que mantinha sobre si um punhal para se defender ou para se matar. Vivia numa gruta, e passava o tempo a fumar kif, e a esperar a sua bela da noite. Claro que nunca soube que esta mulher só era mulher sob o seu corpo, nos seus braços. Ela oferecia-lhe dinheiro. Ele recusava-o; ela indicava-lhe os caminhos onde ele podia ir roubar, e garantia-lhe a máxima segurança, desaparecendo em seguida para reaparecer de improviso numa noite sem estrelas. Falavam pouco; misturavam os seus corpos e preservavam as suas almas. Conta-se que se bateram numa noite, porque quando faziam amor ela pôs-se por cima depois de o ter posto de barriga para baixo, e simulou a sodomização. Indignado, ele rugia de raiva, mas ela dominava-o com todas as suas forças e imobilizou-o esmagando-lhe a cara de encontro ao chão. Quando conseguiu livrar-se dela, pegou no punhal, mas ela foi mais rápida, saltou para cima dele, e venceu-o; ao cair, a arma tocou-lhe no braço, ele pôs-se a chorar, e ela cuspiu-lhe na cara, deu-lhe um pontapé nos testículos e partiu. Tinha acabado. Ele nunca mais voltou a vê-lo, e o bandido, ferido, enlouqueceu, deixou a sua gruta e foi-se embora para junto das mesquitas, doente de amor e de ódio. Deve ter-se perdido no meio da multidão, ou foi engolido pela terra que tremeu. Quanto ao nosso chefe, morreu novo sem estar doente, durante o sono. Quando o despiram para o lavar e cobrir com a mortalha, descobriu-se com a admiração que calculam que era uma mulher, cuja beleza apareceu bruscamente como a essência desta verdade escondida, como o enigma que oscila entre as trevas e o excesso de luz.
Esta história correu pelo país e pelo tempo. Chega hoje até nós um pouco transformada. Não é este o destino das histórias que circulam e que correm com a água das nascentes mais altas? Vivem mais tempo do que os homens e embelezam os dias.
(Jahar Bem Jelloun, in A Criança de Areia)
Não existimos mais que os nossos sonhos.
Teixeira de Pascoaes
ser livre é ir para novo
e eu quero morrer a nascer
dizem que não fecho bem
e eu acho isso bom
Poema para Galileu
de António Gedeão, dito por ele
"Nunca ninguém conseguiu ver, através de mim, o meu ser real, que é sensível e puro e que se eleva muito acima da degradante baixeza em que escolhi espojar-me, em parte para desagradar às convenções e em parte por um estranho desejo de sofrer"
Isabelle Eberhardt

foto: Manel

Este é o caderno de voltar atrás
É o caderno de escrever às arrecuas
Devagar
Para dobar as linhas e descobrir a página em que isto começou
Não começou ontem, sabemos disso nem anteontem
Não se tem memória de quando se deu o primeiro passo
Lembras-te? Foi naquele dia em que subiste a um banco que estava em cima de uma mesa para espreitares a um muro que não era teu. E caíste de lá. (o que querias ver?) Pois, não te recordas. E eu só sei que te amparei a queda e te ajudei a fazer um muro de volta para o outro. E me prometi para todo o sempre. Mas voltaste a cair. Uma e outra vez. E outra e outra. Que visão é essa que te faz cair? Eu quero saber porque cais.
Eu não caio. E faço o muro sozinha e vou descobrir o que é. Já está quase.
Mas este é o teu caderno de voltar atrás
É preto como as tuas asas
E branco como o meu desejo
E nele não te hás-de perder
Não te hás-de perder
Não te hás-de perder
Não te hás-de perder
Porque só vais andar para trás
As folhas são finas para que ao voltares não te esqueças do que aconteceu amanhã… e possas sempre lá voltar para descansar no quarto escuro da mulher escura
Essa mulher para quem fugiste para verdadeiramente viveres do que escapavas à original
Nesse quarto onde já não entra mais ninguém a não ser a dona que te dá de comer
Um quarto cheio de muretes pelo joelho.
Não é um bom descanso para quem cai tanto… mas é um descanso
Lá fora há cada vez mais gente para te amparar mas nunca será suficiente
Tu não te seguras e não sabem onde te agarrar dói sempre meu corvo emparedado
Os muros são cada vez mais baixos e difíceis de alcançar e já te esqueceste porque existem.
Eu sei porque existem. Mas o que te faz cair? Eu vou descobrir o que te faz cair. Está quase. VAI CAIR TUDO!
Lá fora há cada vez menos desejo pautado para ti
(os teus anjos passam por mim tão tristes)
Nesse quarto já não o há
Só este caderno
Este é o caderno de voltar atrás
Não o caderno de voltar a mim
O caderno de voltar a ti.
Andreia Macedo
Lisboa, 27 de Fevereiro de 2010

Gonçalo M. Tavares in "Breves notas sobre o medo"
Onde quer que esteja, em qualquer lugar
na Terra, escondo dos outros a certeza de
que n ã o s o u d a q u i.
Como se tivesse sido enviado para absorver
o máximo das cores, sons, cheiros, sabores,
provar de tudo o que é
reservado ao Homem, converter o vivido
num registo mágico e levá-lo para lá, de onde
parti.
Czeslaw Milosz
. Dia da Família Feliz Feli...
. Alegria
. Miau
. POEMA
. O meu super-herói arrebun...
. Andreia do Outro Lado do ...
. SITES
. LEITURAS
. 1 - Henri MICHAUX - Nós Dois Ainda - Janeiro 12
. 2 - Albert CAMUS - O Estrangeiro - Fevereiro 12
. 3 - Gonçalo M. TAVARES - Histórias Falsas - Março 2012
. 4 - Sófia PROKOFIEVA - A Caixinha das Surpresas - Abril 2012